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Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes - 1º lugar - categoria "Contos" 2019 - Campinas SP


Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes - 1º lugar - categoria


Conto - 1º lugar - "TUC" (Catia Schmaedecke)


Tuc. Um pingo despenca da árvore no alto da cabeça, em seguida rola no couro cabeludo até ser absorvido. O cutucão desperta um sino por entre os neurônios, provoca energia extra no canal auditivo, libera o agudo retumbante através dos tímpanos, quebra o silêncio das primeiras horas do dia. As têmporas tremelicam, dilatam-se as pupilas, é preciso esfregar as mãos para enxugar um pouco de suor.
O vento derruba do plátano uma folha seca, que rodopia duas vezes antes de repousar suave no banco ao lado. A lembrança lhe salta à mente assim que o cheiro de terra molhada penetra por suas narinas. Dona Martha. É ela quem surge no meio da sala segurando o tabuleiro com a torta de maçã fumegante. “Filha, arruma a mesa pra mãe.”
Uma brisa úmida movimenta de leve seus cabelos quando ela fecha a janela. Então, desdobra a toalha, esticando-a sobre o tampo de madeira. Sem pressa, posiciona as três xícaras, os três pratos, os três talheres. “Três não, minha filha. É só pra nós duas.”
Lucinha olha para a mãe e em seguida para a poltrona. Não faz menção de recolher a louça restante. Sabe que, se ele quiser, pode lhes fazer companhia à mesa. “Não tem mais ninguém aqui, Lucinha. Só eu e você.”
Cansada das invenções da filha, Martha puxa a cadeira e senta. Quer apenas beber o chá em paz. Lucinha mantém-se em pé em frente à poltrona. “Para com isso, filha. O chá tá esfriando.” A menina não responde. Não deseja fazer mais nada sem a presença paterna. Se ele não pode participar, ela também não quer. “Vem fazer o lanche com a gente, papai.”
Tuc. Outro pingo despenca em seu ombro direito, percorre um curto trajeto pela manga, e desaparece no entrelaçamento dos fios de lã. Ela mantém o olhar fixo no vão entre um ponto e outro do tricô, onde o pingo mergulhou. “Pingo bobo.” Desvia o olhar para a pequena poça ao lado do banco, onde aparecem refletidas algumas nuvens cinzentas.
Outra lembrança surge ao lado da fileira de formigas que, nesse momento, contorna a água. Ivan. É ele quem está com ela de mãos dadas. No caminho de volta para casa, faz questão de carregar os livros. “Eu te amo, Lucinha.” Ele a envolve com o braço, fazendo-a sentir-se protegida. “Também te amo, Ivan.”
Os dois encostam-se pelos quadris, sincronizam as passadas, acham graça do balanço. De repente, em um lampejo de memória, ela o vê inconsciente no chão, os livros espalhados sobre o mato. Sente o cheiro acre, um fedor de corpo imundo misturado ao de álcool. Tem a boca tapada, não consegue gritar. Tenta se debater. Uma mão grande, áspera, sobe por dentro do vestido, esfregando-se em suas coxas. O coração lateja na garganta, ela aperta os olhos. Com o peso do corpanzil, mal consegue respirar.
Quando volta a abri-los, a imagem do pai surge em pé, observando-os. Ele fixa o olhar nos olhos dela, em seguida no cinto jogado na grama, ao alcance de sua mão. Quando o sujeito treme o corpo demonstrando chegar ao êxtase, ela dá de mão no cinto, enlaça-o pelo pescoço, e puxa as pontas do couro com toda a força. Enfurecido, o homem tenta lhe dar um soco. Ela desvia o rosto, puxa mais, e mais. Urra de ódio. A voz gutural, selvagem, jamais emitida antes. Agora Lucinha é um animal em luta sobre o corpo repugnante, sufocando-o até que desfaleça.
Tuc. Mais um pingo cai sobre o dorso de sua mão, corre pelo dedo indicador, e salta faceiro no meio da poça d’água. Ela sorri. “Pingo esperto”. O trovão ecoa ao longe, a chuva afasta-se dando lugar aos primeiros raios de sol. Lucinha vê no céu uma nuvem em forma de rinoceronte. Em um passe de mágica, o vento converte a imagem do animal à de uma flor. De repente o girassol gigante desfaz-se, pétala por pétala e, então, desaparece.
A cena surge em sua mente como um filme em preto e branco, antigo e desgastado pelo tempo. Agora ela é apenas uma espectadora.
- Aonde a senhora vai? – A garotinha, com o olhar assustado, segue a mulher a passos ligeiros por todos os cômodos da casa.
- Eu já te falei. Na padaria. - Apressada, a mulher continua conferindo se todas as janelas estão bem fechadas.
- Eu vou junto? – Ela pergunta com a voz trêmula.
- Não, menina. Leia meus lábios. – Então, se vira para Lucinha, abre a boca e posiciona a ponta da língua nos dentes superiores para pronunciar a palavra. Franze o cenho, e dispara a resposta feito uma flecha. – Não! – Em seguida puxa a bolsa da cadeira.
- Eu tenho medo de ficar sozinha. – Ela empalidece.
- Pois, tá na hora de enfrentar esse medo. – A mulher sai sem olhar para trás, tranca a porta por fora.
Lucinha encosta-se à parede ao lado da porta, desliza até o chão, e abraça os joelhos tentando fazer com que parem de tremer. “Vou contar pra mamãe, vou contar pra mamãe.” - lembra-se da imagem forte de Martha. Quando contar que foi deixada sozinha, a mãe vai punir a babá.
Um estalo de madeira chama a sua atenção para a sala. Ela enxerga a sombra agigantando-se através das frestas da veneziana, tomando a forma masculina de um adulto. O coraçãozinho dispara. Quer gritar, mas não consegue. É nesse momento que o zumbido ecoa dentro de sua cabeça pela primeira vez. Tão alto que ela se vê obrigada a levar as mãos aos ouvidos tentando, em vão, fazer com que o sino pare de tocar. Por isso, não percebe que os passos do lado de fora se encaminham a todas as aberturas da casa, detendo-se em cada uma, antes de chegar à porta da frente.
Então, o silêncio. Lucinha pensa que o estranho foi embora, sentada no chão, chora baixinho. Seca o nariz na manga de sua blusa preferida. Lembra-se de que adora usá-la por baixo do vestido de alças. Os dedos sujos movimentam-se devagar através do vão, por baixo da porta. “Não chora lindinha. O tio veio pra te fazer companhia. Abre a porta.”
Suwiiinnn. O zumbido estoura-lhe nos ouvidos. Ela sente uma pressão forte no peito. Abre a boca para gritar, mas não consegue emitir nenhum som. O estranho continua movimentando os dedos, aterrorizando-a sobremaneira. O homem gira a maçaneta antes de esmurrar a porta.
Lucinha dá um salto, corre até a cozinha, tenta encontrar um lugar para se esconder. É a primeira vez que a imagem de seu pai surge para ela. Ao lado da mesa, ele olha seus olhinhos, em seguida para a faca repousada no pedaço de pão. Ela não entende, só está
muito feliz em vê-lo, faz menção de abraçá-lo. Ele desaparece de um lado da mesa, ressurgindo no lado oposto. Repete o movimento com o olhar. Detém-se um pouco mais na faca, volta o olhar para a filha.
Do lado de fora, o homem esbraveja. “Eu sei que tu tá sozinha. Eu vi quando ela saiu. Abre aqui pro tio!” Lucinha olha para o pai antes de pegar a faca. Ele pisca para ela, que volta até a frente da porta, e senta-se de pernas cruzadas. Faz um muxoxo, fingindo chorar.
O homem enfia os dedos por baixo da porta, movimenta-os devagar, de um lado ao outro no assoalho, tenta transmitir-lhe segurança. “Não fica triste lindinha. O tio tá aqui pra te proteger.”
Ela olha para o pai, que lhe devolve uma piscadela com um movimento afirmativo de cabeça. Então, ergue a faca com as duas mãos até onde consegue, em seguida acerta a ponta com toda a força em um dos dedos. O sangue espirra em seu vestido.
- Dona Lúcia. A senhora tá me ouvindo? – Ela volta o olhar para a auxiliar de enfermagem. –Tá na hora do seu remedinho. – A moça coloca a bandeja sobre o banco, e retira do bolso do jaleco a caixa de comprimidos.
- O que ela tem? – O estagiário faz a pergunta com o caderninho de anotações em mãos.
- O doutor disse que ela não se lembra de nada. Foi deixada aqui há três anos. – A moça coloca uma pílula na boca de Lucinha e, desajeitada, derrama um pouco de água por seus lábios. Rápido seca-a com um guardanapo.
- É Alzheimer? - O rapaz olha curioso para a paciente – Olá, Dona Lúcia. Eu sou o Roberto. – ele acena em frente ao seu rosto, mas ela não responde.
- O doutor diz que sim. Não reconhece ninguém. – A cuidadora guarda a caixa de comprimidos de volta no bolso. – Também tem sintomas de Síndrome do Pânico.
- Qual é a idade dela? – pergunta e vai anotando as informações.
- Oitenta e nove. – a moça responde ao ajeitar a almofada nas costas de Lucinha. Arruma-lhe os cabelos brancos, fecha o casaco de lã, e encaminha-se para dentro com o estagiário.
- Ela ainda fica aqui fora por quanto tempo?
- Só mais quinze minutos, até eu organizar o café. Aí venho buscar. – A moça confere o relógio antes de subir os degraus para entrar na clínica.
No jardim, Lucinha retira com calma o remédio debaixo da língua e joga-o no chão. Acomoda-se na almofada como estava antes e abre o casaco. Tenta arrumar os cabelos do jeito que gosta, mas o leve tremor nas mãos a faz desalinhá-los. Olha para o lado e sorri. Da outra ponta do banco, o pai lhe devolve uma piscadela. O vento balança os galhos da árvore, provocando a queda dos últimos pingos de chuva.
Tuc. Quando um pingo desliza pelo meio de sua testa e alcança-lhe a ponta do nariz, Lucinha sente cócegas e ri alto. “Pingo palhaço.”