CONTOS


:: ANESTESIA GERAL

 

Ao sair do túnel a claridade do dia ofusca as minhas vistas, obrigando-me a piscar várias vezes. Uma menininha se agarra à minha mão e me convida para brincar. Avisto algumas crianças correndo de um lado a outro por entre eucaliptos. Dou-me conta que sou pequena outra vez. Com a testa apoiada nos braços, coloco-os assim, cruzados no tronco da árvore. Mantenho meus olhos bem fechados, conto até vinte... “Um, dois, três, quatro, cinco... vinte! Prontos ou não, lá vou eu!” A luz no teto oscila chamando-me à razão. Calculo que isso aconteça a cada trinta, talvez quarenta segundos, logo depois de uma pancada.


Deito os pelos de um lado, levanto-os de outro. Aliso a camurça devagar com a palma da mão, observo suas tonalidades variando em dégradé, do marrom escuro ao ocre. Da lateral sai uma manga, duas frentes do meio, das pontas a gola, e os punhos. Olho para a pilha na mesa ao lado. Preciso de outra pele para as costas e para a outra manga, tem que ser da mesma cor. Procuro não pensar no animal, tampouco na dor entranhada em cada curva do couro macio que dá forma ao que eram as patas, o pescoço e a cauda. Quando imagino o seu olhar apavorado, instintivo ao reconhecimento da morte bem à frente, minhas pernas amolecem, meu coração acelera. Desse momento em diante sou uma rês fugindo em disparada através da campina. Procuro desesperada por minha mãe. Outra batida faz as luzes tremeluzirem. Penso que estão fazendo a mudança no andar de cima. Com esforço tento movimentar os braços, mas o que consigo é apenas mexer de leve uma perna.


O charmoso homem de terno e gravata abre a porta do carro para mim, senta-se ao volante e leva a minha mão aos lábios.  Ele ainda não sabe que num futuro próximo, será meu marido e pai do meu filho. A “Tocata e Fuga em Ré Menor”, dedilhada com perfeição nas cordas de um violão, banha o ambiente e me oprime o peito com a saudade de tudo que eu não vivi. Enlevo-me com a melodia, perscrutando a partir de uma determinada escala acerca do que diria Bach, sobre o meu casamento. Sou atraída pelos mistérios da vida, encantada com o poder oculto que se encontra presente nos acontecimentos do cotidiano. Encontros previamente marcados, sem consentimento aparente, fazem parte desse meu universo desde quando me conheci por gente. Ainda assim, a curiosidade sobre o que pensaria alguém com tamanha sensibilidade para compor maravilhas, sobre a nossa união, me faz imaginar algumas situações divertidas, outras nem tanto, porém todas interessantes. As luzes voltam a piscar, dessa vez sem o prenúncio de uma pancada. Como relâmpagos ao longe, oscilam em silêncio.  


Consigo levantar um pouco a cabeça. Aos pés da cama um grande pilar me impede a visibilidade, percebo um pequeno crucifixo pendurado nele, de frente para mim. Resignada, deito a cabeça no travesseiro. Após alguns minutos uma moça se aproxima. Ergue meu braço esquerdo pelo punho e em seguida o solta. Vejo-o despencar ao lado do meu corpo, em total inércia. É quando se descortina à frente dos meus olhos o fundo azul de um quadro de Monet. Passando a arrebentação, as ondas mansas do Posto Seis envolvem-me por inteiro, e balançam devagar o meu corpo. Entre uma braçada e outra, aproveito o silêncio que acompanha o frescor das primeiras horas da manhã. Nadando sozinha à beira-mar, eu sou filha do Sol, herdeira da mãe Natureza, semente do Criador.


Alguém geme alto puxando-me de volta para o momento atual. Ergo a cabeça, a única parte do corpo que parece ter vida. Aos meus pés, o pequenino homem do crucifixo move-se junto com o tremor das luzes. Fecho os olhos, aperto-os, devo estar enxergando mal. Os gemidos na sala tornam-se um lamento, uma espécie de uivo intermitente, a despedida de alguém que se nega a ir embora, que se retorce no leito sofrendo por ter que partir, a despeito do alívio que os efeitos da medicação lhe proporcionam. Abro os olhos a tempo de vê-lo se soltando da cruz. Ele puxa com força o punho direito, com a mão direita solta a mão esquerda. - Ei, Jesus, fique bem onde está! – Procuro convencê-lo de que sair dali não é uma boa ideia. - Não acreditarão em você, duvidarão de novo das suas palavras. Para o seu próprio bem, fique na cruz! - Ele lança o olhar de compaixão para mim, sorri antes de soltar os pés e em seguida escorregar no pilar até o chão. Ao caminhar em direção aos gemidos a sua silhueta vai crescendo aos poucos, até atingir o tamanho natural. “Deus... Como eu preciso esfregar os olhos...”.
A enfermeira volta a mexer no meu corpo. Confere o relógio e chama uma auxiliar.


- Protejam Jesus, protejam Jesus... – Faço um esforço sobre-humano para falar, mas minha voz é um débil sussurro e, embargada, arrasta as palavras até caírem num precipício.
- Chama o doutor! – a enfermeira se movimenta rápido à volta da cama. – Diz que é urgente!


Sinto um pouco de falta de ar, mas isso não me assusta. Já frequentei muitas salas de nebulização ao longo do tempo. Tenho bronquite alérgica. Levo a bombinha na bolsa. Avisei ao doutor quando fiz os exames antes da cirurgia. A propósito, não lembro qual lugar do meu corpo foi operado. As luzes voltam a piscar. Em pé ao meu lado o doutor conecta-me a um aparelho. Seus movimentos são rápidos e bruscos. A máscara de oxigênio é fixada cobrindo-me o nariz e a boca. Não sei se eu posso fechar os olhos, tenho um pouco de receio em fechá-los. Jesus se posiciona atrás do doutor e direciona para mim o seu olhar de compaixão. Concluo que Ele não precisa de proteção e sinto, com grande alívio, que estou a salvo.  


- Eu quero uma jaqueta de couro preta. Tu sabes fazer? E um jaleco branco, com meu nome bordado no bolso.  – Olho para o homem que pressiona, com o polegar, o êmbolo da seringa contra o meu braço. Abro a boca para responder, mas minha língua vira uma massa pesada por entre os meus dentes. A imagem do homem vai aos poucos se distanciando, minhas pálpebras se transformam em pequenas folhas de chumbo, ouço as vozes ao fundo. – Ela já foi? – alguém pergunta. – Foi! – o homem responde.


No escuro percebo uma luminosidade penetrando através da saída longínqua do túnel. Sinto um tremor sob meus pés, percebo que estou pisando em trilhos. Viro-me para trás e vejo um trem se aproximando. Rápido afasto-me para o lado evitando que ele me atinja. A locomotiva passa próximo de mim carregando dois vagões lotados de gente.  Na curva um pouco mais adiante as rodas passam por uma parte do trilho que está solta do chão. Levo as mãos aos ouvidos. O som da pancada retumba no túnel.

 

(Catia Schmaedecke)


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